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Edição de 24-07-2010

Opinião
Uma Estranheza Chamada BP


Valdemar Rodrigues

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Ao fim de um mês de derrame no Golfo do México, o qual teve início a 20 de Abril na sequência de uma explosão numa plataforma no mar, por razões que a razão desconhecerá, sobretudo neste tempo de aquecimento global em que as petrolíferas globais, como a BP, se dizem "amigas do ambiente", a Casa Branca tornou público que Obama estava aborrecido com a BP, devido àquela que ameaçava tornar-se a pior catástrofe ambiental da História dos EU. Ao fim de quase dois meses, leio que a Guarda Costeira americana fez um "ultimato" à BP, pelo que eram dados à companhia dois dias para… definir com precisão um plano para conter a fuga de petróleo.

Ora, para o cidadão comum, nada disto parece estranho, tantas são as coisas estranhas a que os meios de contaminação social o vêm habituando há décadas. Mas para mim, que tenho na Razão uma fé inabalável, tudo isto me causa uma enorme estranheza. Desde logo porque ando, há décadas, a ouvir falar de uma coisa chamada "princípio do poluidor-pagador", assunto sério e muito ponderado que se destina a fazer pagar àqueles que poluem os custos da poluição.

Em tempos de Austeridade e de Colossais Défices Públicos, quanto não teria que pagar a BP, ou as suas perspicazes seguradoras, pela poluição causada naquele que é o maior golfo do mundo? Será o princípio do poluidor-pagador apenas um estratagema para lixar os mais pequenos? Sim, porque convém não esquecer as centenas de empresas que todos os dias fecham a Ocidente por estarem a poluir. Depois, há a circunstância da responsabilidade ambiental.

Ao ver as caras que têm vindo a público responder pela BP, tipo CEOs e sortes afins, sinto um défice a toldar-me a Razão, e pergunto-me: será o anonimato dos accionistas da BP compatível com esse sentido elevado e nobre de responsabilidade? Ou será que entre tais accionistas estão alguns dos grandes credores da mundial dívida, tímidos e receosos de mostrar-se?

Sobre isto, registo de permeio a estranheza que é ouvir-se tantas vezes falar do dinheiro que todos (empresas, Estado e famílias) devemos e tão poucas (na realidade, nenhumas) daqueles a quem devemos. Isto como se os credores não tivessem nome nem rosto, ou pertencessem a uma qualquer espécie alienígena ou extraterrestre.

A pergunta consequente seria: e quem veste o fraque e dá a cara em seu lugar para as cobranças? Mas esta pergunta seria para mim hoje fácil de responder: não principalmente os CEOs e quejandos que nestas ocasiões aterram, mas sobretudo os fantoches ditos políticos das "democracias" actuais, manietadas pelo dinheiro.

Depois noto ainda, no que à geografia concerne, um hiato informativo absolutamente estranhíssimo. Sendo a costa continental do referido golfo cerca de metade norte-americana e metade mexicana, parece que os mexicanos não têm sobre o assunto qualquer opinião. Nenhum político mexicano parece ter abordado ao tema, e não parece haver no México nenhum cientista, digno desse nome, capaz de tecer alguns considerandos sábios sobre a tragédia (estarão comprados?).

Eis como se demonstra, mais uma vez, a realidade dos filtros instalados nas agências informativas, agora que estão todas de baterias apontadas ao fenómeno sociológico do futebol cujos dinheiros, como as manchas oleosas do Golfo do México, não primam exactamente pela limpeza.

Quanto à BP, ao ler agora os seus pretéritos e impecáveis relatórios ambientais, descrevendo o imenso esforço ambiental prosseguido, nomeadamente na sua cruzada contra o aquecimento global, ocorrem-me de imediato duas visões.

Uma é a metamorfose: os accionistas, no seu típico gesto de cobardia perante a ameaça, procuram escapar sem serem vistos, livrando-se rapidamente das suas acções nesse desresponsabilizador sistema de economias de casino em que vivemos, e que todos os dias dá sinais de ser incompatível com o ideal abrangente de sustentabilidade pelo qual muitos povos hoje anseiam (veja-se por exemplo o caso dos biocombustíveis em que também a BP esteve envolvida, e as consequências que isso teve em termos de segurança alimentar mundial).

Outra é o habitual esquecimento, aliado ao desinteresse que estes temas suscitam a uma cada vez mais condicionada horda de "intelectuais". E assusto-me ao imaginar o dantesco conteúdo do próximo Environmental Corporate Report da companhia. De facto, existem por aí demasiadas BP, todas elas anunciando o seu amor ao ambiente, muitas vezes carimbadas de louros e certificações ambientais de origem pouco mais que duvidosa.

Antes de haver Pai Natal, o que interessava, o que sempre interessou a essas empresas, era a margem de lucro e a sua imagem pública. Depois, quando o Pai Natal veio, vimos emergir repentinamente um generoso e sincero altruísmo empresarial, assente nos ideais de sustentabilidade e de responsabilidade ambiental e social. Agora, alguns "intelectuais" mais atentos investigam a hipótese do Pai Natal inexistir.

 

 



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