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Pedro Antunes // Edição de 25-10-2002

A crítica da crítica da Arquitectura

O conhecido arquitecto Tomás Taveira centrou grande parte do tempo da conferência que proferiu no dia 17 no Museu do Ciclismo, no âmbito da exposição “Traços da Cidade”, na crítica aos críticos da Arquitectura, pois considera que nos últimos anos tem havido uma sobreposição total destes sobre os arquitectos.

Na sua opinião, isso não acontece na crítica do cinema, literatura, pintura, escultura, ou nenhuma outra arte. O papel assumido por estes na arquitectura tem um impacto muito grande e castrador. “Os projectos têm de ter uma imagem que coincida com a que eles têm na cabeça” e é por isso que considera que actualmente nas faculdades os alunos fazem os projectos todos iguais “como os que vêem nas revistas”.

Perante esta situação, considera que é muito difícil um jovem romper com o que está uniformizado e fazer algo de diferente porque “depois arrumam-lhe a carreira”, o que é sinal de intolerância.

Famoso pela irreverência dos seus projectos, Tomás Taveira mostrou ser tão provocador como são os edifícios que desenha. Usou o humor na conversa para prender o público, da mesma forma que usa nas obras que projecta “para introduzir a noção do surreal”.

A conversa sobre a crítica serviu também para o arquitecto preparar o público que encheu o espaço destinado a esta conferência “para mostrar uma arquitectura que não é normal”.

Tomás Taveira começou por mostrar projectos que não foram concretizados principalmente por “medo” dos promotores e que chegou a causar “pânico” em alguns deles. Por outro lado também é o medo de perguntar o sentido de um projecto que, na sua opinião, leva alguns clientes a aceitarem o que se lhes propõe.

O arquitecto falou também, logo de início, sobre o escândalo das cassetes íntimas com divulgação nacional, que o tornou ainda mais famoso, embora por razões que nada têm a ver com a arquitectura. “Estive dez anos sem trabalho. Foi um longo período de meditação”, disse, contando que só voltou em pleno à sua profissão no final da década da 90. Foi nessa altura que achou que “andava a fazer umas coisas bastante normais e isso era irritante para mim”. A partir dessa altura surgiram os seus projectos mais arrojados e que “os críticos de arte têm alguma dificuldade em compreender”.

Tomás Taveira falou de outros arquitectos como James Stirling ou Frank Gehry. Este último, autor do museu Guggenheim, em Bilbao, disse-lhe um dia que o seu grande sonho era fazer um edifício que possa sempre parecer uma cidade. “Diferentes blocos articulam-se por partes”, explicou. Esta foi uma das suas principais influências, mas estas vêm também do cinema, da literatura, poesia e doutras artes.

O conferencista falou ainda da sua relação com as autarquias e da dificuldade que sempre teve em falar com os políticos. “Tratam-me sempre muito bem, mas depois chumbam-me os projectos” e é por isso que há muitos anos não entra numa Câmara Municipal deixando essa discussão para quem vai construir. “É uma medida de sanidade mental” referiu, dividindo os autarcas em três gerações. Os primeiros a seguir ao 25 de Abril “eram uns perfeitos primatas”, os segundos já vieram com outras preocupações e os da terceira geração são “uma incógnita porque ainda não tiveram tempo”. Ter um arquitecto como vereador, como nas Caldas, parece-lhe uma forma de facilitar o diálogo entre estes e as autarquias. Por outro lado, podem ser mais “perigosos porque são mais intelectuais” e poderão ter receio de arriscar em novas formas.

As inovações de Tomás Taveira não se cingem à forma como desenha. O arquitecto é defensor da utilizações de pré-fabricados para conseguir certos efeitos em obras. “Somos muito clássicos e ligados à tradição do tijolo”, disse. Esclareceu ainda que tem uma grande ligação ao barroco e isso é notório na ondulação das fachadas e na utilização de cúpulas.

Para o fim deixou a apresentação de um projecto que está a ser construído: o novo estádio do Sporting. Aqui já fez notoriamente algumas cedências, embora facilmente se note o seu traço. “Tudo nesta arquitectura é evidente, não há nada que se esconda. Por isso é um projecto neo-brutalista”, concluiu.





Câmara quer projectos arrojados



Se Tomás Taveira apresentasse um projecto mais arrojado na Câmara das Caldas não seria o Gabinete de Planeamento Urbanístico, gerido pelo vereador Jorge Mangorrinha, que iria colocar problemas à sua implementação.

Pelo que já vi dos projectos que entraram este ano, poderá haver brevemente dois ou três casos de boa arquitectura e arrojada, que podem ser bons sinais de acordo com o que foi falado hoje”, disse o vereador.

Jorge Mangorrinha garantiu que os projectos mais arrojados não seriam alvo de discriminação na autarquia caldense. “Eu estou aberto a que hajam propostas arrojadas, de linguagens arquitectónicas diferentes do que é costume ver-se”, mas sempre no âmbito da arquitectura e não da construção pura e simples.

Perante a forma como o arquitecto Tomás Taveira falou das convenções criadas nesta temática, o autarca não considerou que a recém-criada Comissão de Estética Urbana possa ser uma forma de delimitar o que se pode fazer em arquitectura no concelho.

A Comissão de Estética Urbana é um órgão consultivo e de enquadramento do desempenho autárquico da Câmara Municipal, mas é por natureza um órgão plural e é da pluralidade das opiniões que se enquadram as posições políticas e decisões técnicas”, respondeu. Da mesma maneira que há estilos diferentes, há também gostos variados.

Na sua opinião, durante esta conferência “falou-se de arquitectura de uma forma elevada”, lamentando que o que é feito nas cidades portuguesas seja mais construção do que propriamente arquitectura. É por isso importante que as pessoas menos esclarecidas e os políticos oiçam estas palestras para discutir arquitectura e cultura urbana.



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