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Edição de 03-08-2004

Opinião
Morreu Carlos Paredes


Ricardo Miguel

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Morreu Carlos Paredes. Esse Carlos Paredes que, músico de enorme e merecido prestígio, era paralelamente um homem comprometido com o seu povo, com quem nunca deixou de estar, sendo militante comunista de longa data. Como o próprio reconhecia, era para esse povo - motivo maior das suas preocupações enquanto homem e enquanto artista - que ele trabalhava, dele recebendo simultaneamente inspiração.

Carlos Paredes nasceu em Coimbra, a 16 de Fevereiro de 1925. Filho do conhecido guitarrista Artur Paredes, aprende a tocar guitarra com apenas 4 anos. Aos nove anos a família muda-se para Lisboa, onde Carlos, depois de concluir a instrução primária, frequenta o Liceu Passos Manuel e posteriormente o Instituto Superior Técnico.

Em 1957 grava o seu primeiro disco, um EP intitulado apenas «Carlos Paredes». É o início de uma longa e brilhante caminhada pelo mundo da música, que viria justamente a reconhecê-lo como o maior entre os virtuosos da guitarra portuguesa.

A sua música começou, em 1960, a ser utilizada por diversos e destacados realizadores portugueses, como Cândido da Costa Pinto, na curta-metragem «Rendas de Metais Preciosos». São dele, entre outras, as bandas sonoras de «Verdes Anos» e «Mudar de Vida», de Paulo Rocha, ou do «Fado Corrido» de Jorge Brun do Canto.

«Romance N.º2»; «Fantasia»; «Porto Santo»; «Guitarra Portuguesa»; «Meu País»; «Balada de Coimbra»; «Movimento Perpétuo»; «António Marinheiro»; «É Preciso um País»; «Concerto de Frankfurt»; «Intervenções Livres»; «Espelho de Sons»; «Dialogues»; «Asas sobre o Mundo»; «Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes»; «Na Corrente»; «O Melhor de Carlos Paredes – Guitarra» e «Canção Para Titi – Os Inéditos, 1993» são títulos que o impuseram no panorama da música portuguesa, mas não só.

Em 1993, é-lhe diagnosticada uma mielopatia, que o impede de continuar a tocar. A sua música continua, porém, a ser ouvida cada vez mais. A compilação «Na Corrente» de material inédito, relativo aos anos de 1969, 1971 e 1973, editada pela Valentim de Carvalho, em 1996, atinge rapidamente o top-20 oficial de vendas de álbuns compilados pela AFP.

Morreu a 23 de Julho, com 79 anos, na Fundação-Lar Nossa Senhora da Saúde, em Lisboa, onde se encontrava desde 1993.

Paredes pertence ao número daqueles artistas e criadores que menos falam de si, que menos aparato criam à sua volta, que menos fazem rodear as suas apresentações públicas de certa postiça encenação tão do gosto dos medíocres. Por isso mesmo, quando se ouve Paredes, seja qual for o ambiente ou a situação, os nossos reflexos não podem deixar de ser condicionados pelo choque das ideias - pretensamente claras mas desarrumadas, pretensamente racionais mas repletas de emoção -, pela estupefacção e perplexidade face à música que este homem, aparentemente tão comum, nos faz viver.

Mas a sua música permanece viva, cada vez mais viva, revelando não apenas o artista mas também o homem. Um homem cuja modéstia e invulgar dimensão humana torna melhor quem o ouve tocar.

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