|
Morreu Carlos Paredes. Esse Carlos Paredes que, músico de enorme e merecido prestígio, era paralelamente um homem comprometido com o seu povo, com quem nunca deixou de estar, sendo militante comunista de longa data. Como o próprio reconhecia, era para esse povo - motivo maior das suas preocupações enquanto homem e enquanto artista - que ele trabalhava, dele recebendo simultaneamente inspiração.
Carlos Paredes nasceu em Coimbra, a 16 de Fevereiro de 1925. Filho do conhecido guitarrista Artur Paredes, aprende a tocar guitarra com apenas 4 anos. Aos nove anos a família muda-se para Lisboa, onde Carlos, depois de concluir a instrução primária, frequenta o Liceu Passos Manuel e posteriormente o Instituto Superior Técnico.
Em 1957 grava o seu primeiro disco, um EP intitulado apenas «Carlos Paredes». É o início de uma longa e brilhante caminhada pelo mundo da música, que viria justamente a reconhecê-lo como o maior entre os virtuosos da guitarra portuguesa.
A sua música começou, em 1960, a ser utilizada por diversos e destacados realizadores portugueses, como Cândido da Costa Pinto, na curta-metragem «Rendas de Metais Preciosos». São dele, entre outras, as bandas sonoras de «Verdes Anos» e «Mudar de Vida», de Paulo Rocha, ou do «Fado Corrido» de Jorge Brun do Canto.
«Romance N.º2»; «Fantasia»; «Porto Santo»; «Guitarra Portuguesa»; «Meu País»; «Balada de Coimbra»; «Movimento Perpétuo»; «António Marinheiro»; «É Preciso um País»; «Concerto de Frankfurt»; «Intervenções Livres»; «Espelho de Sons»; «Dialogues»; «Asas sobre o Mundo»; «Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes»; «Na Corrente»; «O Melhor de Carlos Paredes – Guitarra» e «Canção Para Titi – Os Inéditos, 1993» são títulos que o impuseram no panorama da música portuguesa, mas não só.
Em 1993, é-lhe diagnosticada uma mielopatia, que o impede de continuar a tocar. A sua música continua, porém, a ser ouvida cada vez mais. A compilação «Na Corrente» de material inédito, relativo aos anos de 1969, 1971 e 1973, editada pela Valentim de Carvalho, em 1996, atinge rapidamente o top-20 oficial de vendas de álbuns compilados pela AFP.
Morreu a 23 de Julho, com 79 anos, na Fundação-Lar Nossa Senhora da Saúde, em Lisboa, onde se encontrava desde 1993.
Paredes pertence ao número daqueles artistas e criadores que menos falam de si, que menos aparato criam à sua volta, que menos fazem rodear as suas apresentações públicas de certa postiça encenação tão do gosto dos medíocres. Por isso mesmo, quando se ouve Paredes, seja qual for o ambiente ou a situação, os nossos reflexos não podem deixar de ser condicionados pelo choque das ideias - pretensamente claras mas desarrumadas, pretensamente racionais mas repletas de emoção -, pela estupefacção e perplexidade face à música que este homem, aparentemente tão comum, nos faz viver.
Mas a sua música permanece viva, cada vez mais viva, revelando não apenas o artista mas também o homem. Um homem cuja modéstia e invulgar dimensão humana torna melhor quem o ouve tocar.
1 comentário(s) a esta notícia. [mostrar/esconder comentários] Por Marília Gonçalves [ip81.249.247.173] em 04-01-2008 09:01Guitarra que te tocava cigarra fantoche grilo enrolado sobre as formas de teu irreal tranquilo génio além de quanto som de quanta alada visão era o único! o teu tom que elevava o coração agora a tua guitarra vai procurar tuas mãos que nunca mais a agarram ficamos orfãos! irmãos!
Marília
Lembro-me de ti Carlos Paredes, numa noite de música no Teatro Lethes de Faro, em 1977. Era verão, e estavam presentes mais dois vultos da Cultura Portuguesa, o José Gomes Ferreira, esse vulto de anc~~ao inesquecivel, de cabeleira branca, como se a lua o tivesse coroado, com seu ar humano e bom, e o Adriano, o nosso inesquecível e terno Adriano! de vocês três já nenhum volta a animar nenhum sarau, nenhuma noite de Cultura, de música, de poesia. Queria dizer-te tudo o que me vai por dentro neste momento em que nos deixaste! e o que me vai por dentro não se traduz em palavras, soam lágrimas que caem no silêncio duma solidão infinita! Ai meu amigo, que quando morre um Artista, como tu, como eles, a nossa pobreza cresce tanto, que mesmo o grito que nos sobrevoa o rasgão aberto para sempre, não tem força para dizer o que é Sinto-me vazia! vazia e esmagada por dentro! Porque morreste e porque não tiveste a vida que os que te amavam, os que se desalteravam com tua música, teriam querido para ti! mas sabes? claro que sabes! Nós meu querido amigo, somos, uns, fazedores de versos, outros, inventores de música e de mãos que a desferem, mas em nossas mãos onde brota Arte, não cresce nunca a vileza do ouro e do dinheiro. Por isso nossa vontade solidária, embora grande, nesse campo é tão fraca! é que nunca podemos dar a um amigo nada mais que o nosso coração!que o nosso apreço! e embora isso seja importante,e indispensável, não sustenta um homem, uma mulher, uma família! entregaste tuas mãos onde poisava a magia da música, a tarefas que te traziam o direito indispensável de sobreviver! e assim foste vivendo, mas sempre com esse manacial de sons que desaguavam na tua guitarra, a dar a cor aos teus dias e aos nossos! poetas, músicos pintores, escultores, artistas, a colorir e a perfumar a vida; numa época gelando, a trazer no criativo invento, o calor que falta à humana necessidade de acreditar. Por todos os que estão, que permanecem contra ventos e marés, que sobrevivem numa Arte que traz nela os alicerces da vida, não vamos mais calar nossa crença: a Arte tem um papel fundamental, na transformação das mentalidades, na transformação da sociedade, porque tem que semear pelo mudo, a certeza de que o ser humano, traz nele a solução de todos os seus problemas. Morreu Carlos Paredes, e aqueles que o ignoraram, que lhe negaram o direito de ser aquilo que realmente era, um músico com o direito de viver de sua música, vão até começar, seu cortejo de fúnebres lamentações! não nos deixemos enganar! Carlos Paredes, se tivesse podido viver de sua música talvez ainda hoje estivesse vivo. Pelo direito a viver, pelo direito ser o músico que foi, (sempre estes verbos no passado a que me não faço!!) desgastou-se muito mais que o necessário! e agora? Agora nosso pranto, nossa dor, não o trazem à vida. Vamos continuar a escutar-lhe a Guitarra, a saborear-lhe os sons como se nada fosse conosco? qual o futuro Paredes, qual o futuro abandonado? Para que tudo mude não nos calemos nunca mai!. pela sua grata e generosa memória e por quantos Paredes nos venham a nascer e a morrer em Portugal! Para que tudo mude, não silenciemos nunca, denunciando toda e qualquer forma de hipocrisia! Honra à sua grata memória Viva a Arte Viva Portugal !
Portugal mais uma vez de luto!!!! Faleceu Carlos Paredes a Guitarra portuguesa chora as mãos que a desferaim com o génio que Carlos Paredes tinha Agora, que se lhe façam homenagens! mas nunca nada pode apagar a ofensa dos que governam Portugal ignorando quase, o Génio ao abandono! Quando governos de nosso Portugal vão olhar seus artistas com o respeito que merecem? Quando sua dignidade vai começar a ser honrada e enaltecida? é preciso que venha a morte? Que palavras encontrar num momento destes, quando ficamos tão mais pobres na nossa Cultura! eu não tenho mais palavras! agora deixo lugar às minhas lágrimas de poeta, de ser humano e de cidadã cada vez mais pobre! Adeus Amigo! até à curva do caminho onde quem sabe nos espera a tua Guitarra, as tuas mão de música e nossos poemas! até sempre companheiro! Até à Música e à Poesia Marília Gonçalves
Viva a Arte, Portugal mais uma vez de luto!
Faleceu Carlos Paredes a Guitarra portuguesa chora as mãos que a desferaim com o génio que Carlos Paredes tinha em si! Agora, que se lhe façam homenagens! mas nunca nada pode apagar a ofensa dos que governam Portugal ignorando quase, o Génio ao abandono! Quando governos de nosso Portugal vão olhar seus artistas com o respeito que merecem? Quando sua dignidade vai começar a ser honrada e enaltecida? é preciso que venha a morte? Que palavras encontrar num momento destes, quando ficamos tão mais pobres na nossa Cultura! eu não tenho mais palavras! agora deixo lugar às minhas lágrimas de poeta, de ser humano e de cidadã cada vez mais pobre! Adeus Amigo! até à curva do caminho onde quem sabe nos espera a tua Guitarra, as tuas mão de música e nossos poemas! até sempre companheiro! Até à Música e à Poesia Marília Gonçalves
|
|